Ciclo Paulista

Superados os primeiros impactos físicos, comecei finalmente a andar de bicicleta.

Nos anos 90, eu teria um nome, me tornei um biker (não sei se esse nome ainda é usado).

O nome reflete bem o que eu sou hoje; um cara dos anos 90 (também 80 e 70) que está tentando chegar com dignidade na casa dos 50. Números demais para quem só quer andar de bicicleta.

E andando de bike, vejo a cidade com os olhos que queria quando comprei a magrela.

Acordei cedo e cruzei a Paulista e achei um canto e comecei a escrever.

O curioso, e bom, é que havia um senhor ao meu lado, também escrevendo! Não perguntei o que ele escrevia, respeitei a sua privacidade, ele estava compenetrado no seu texto.

Estou lançando moda?

Não sei, talvez ele esteja lançando moda e eu fui no vácuo.

 

As caras do caminho

Logo que comecei a andar vi um grupo com um negócio nas costas. Era uma espécie de mochila com uma coisa que parecia uma antena em forma de “X”.

Aí eu pensei: “Estou de bike, eles também, ora eu vou parar do lado e perguntar o que é aquilo”.

Juro que esperei uma resposta do tipo: “É um projeto do google (ou algo assim), onde estamos mapeando as ondas cósmicas na Paulista”.

A resposta não foi tão ficção científica – “É um suporte pra banner”, a menina que me respondeu sorriu andando.

E aqui do meu lado, meio decepcionado, continuei seguindo o meu caminho.

Andei mais uns metros e uma multidão apareceu na minha frente. Passeata? De novo? Quem vai sair agora? O Temer?

Nada, era só uma escola fazendo um passeio coletivo. Como estava de bicicleta, puxei conversa com um dos instrutores, o cara me ignorou e começou a falar com um amigo do outro lado da avenida. Tudo bem, é São Paulo onde todos somos amigos e desconhecidos.

Hoje fiquei com a segunda opção.

Continuei o meu caminho, vi uma casa onde antes era uma agência bancária, que confesso, não lembro o nome, só lembro que ficava lindamente decorada no natal.

Ela estava fechada, cercada por uma tela com arames farpados, algo que me lembrou os filmes nazistas. Foi uma triste troca, culpa da crise?

O que me animou foram alguns quadros, para serem vendidos, pendurados na cerca. Eram bem coloridos, logo me veio a figura de uma flor no deserto.

Dizem que são as mais lindas, não por serem coloridas ou viçosas, mas apenas por estarem lá.

E com esta figura na cabeça, continuei o meu caminho.

Passei pelo Conjunto Nacional e uma escultura gigante de Don Quixote e o seu amigo Sancho Pança me chamou a atenção.

Nesta hora a Paulista se fechou para os carros e se abriu para quem quisesse andar.

E as flores no deserto se misturaram com os moinhos de vento, alimentando o comércio, aliviando um pouco da tensão da cidade.

Ao fundo alguém começou a ensaiar cantos e músicas. Um Elvis tirou a camisa do dia a dia e vestiu seu uniforme Las Vegas. O senhor que escrevia foi tomar um café, e o velho Dom Quixote começou a ser visto por todos os que hoje só andaram.

E São Paulo seguiu assim, se reconstruindo.

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