Noite na taverna de Alvares de Azevedo

A chuva cai forte lá fora. Dentro, na taverna, amigos bebem. O vinho que enche as taças alimenta suas almas de lembranças. Mas por vezes lembrar é trazer o demônio para o seu leito. É ter sob seus lençóis escorpiões. E é exatamente isso que acontece nesta obra de Alvares de Azevedo.

Cinco amigos: Solfieri, Bertam, Gennaro, Claudius Hermann e Johann se deixam levar pelo desprendimento da bebida e começam a contar suas histórias. Lembram de um passado que ainda vive e de certa forma os perseguem.

São sete contos, o primeiro e o último emoldura todos os outros. As histórias, fantásticas, são uma melhor que a outra. Você chega a pensar em como ele vai superar o conto que acabou de ler, mas o próximo que chega vem com a mesma intensidade e com nuances bizarras próprias.

Como os contos estão amarrados uns aos outros, não pelo seu conteúdo e sim pelo lugar e situação, o livro acaba por ter um ar de romance, de história única. A leitura, apesar de ter mais de cento e cinquenta anos (foi publicado em 1855), não é difícil e depois que começa a ler só se para na última página.

Alvares de Azevedo pertenceu a segunda geração dos românticos e ao contrário de seus antecessores, não se prendeu à política e sentimentos nacionalistas. Seu foco voltou-se para dentro, para o que se passava na cabeça e coração humanos.

Ele morreu jovem, aos 21 anos, e era extremamente dedicado à família. Só isto já tornam seus textos singulares. É pouco provável que ele tenha vivido metade do que escreveu. É mais certo que quase toda sua literatura veio do que leu e do que criou só em pensamentos.

Viagem e livros

Alvares de Azevedo não viajou para a Europa, não amou donzelas em galés piratas ou as roubou de grandes lordes. Não escavou o túmulo da amada e deitou-se ao seu lado em uma noite chuvosa.

Tudo o que criou veio dos livros, dos seus autores preferidos, principalmente Byron. Ele é a prova de que uma viagem através dos livros não tem limites. O limite está só em quem vira as páginas, e se esta pessoa possuir asas poderosas…

Ao ler “Noite na taverna” foi fácil perceber a necessidade que ele tinha em escrever. Era uma válvula perfeita para liberar o que ele guardava na cabeça. Feche os olhos após cada conto, relembre as cenas, e vai encontrar lá o desespero a dor e toda a confusão do amor, que foi o alicerce principal do que se chamou o mal do século.

O livro é uma leitura rápida e prazerosa. Pegue uma boa taça de vinho, escolha uma cadeira confortável e venha sentar-se à mesa, nesta taverna, com Solfieri, Bertam, Gennaro, Claudius e Johann. Só cuidado com os escorpiões no lençol.

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Comments

    1. Post
      Author
      Strassacappa

      Que bom que gostou. O ano que vem vou começar a colocar algumas obras de escritores brasileiros que não estão na grande mídia, mas que são ótimos. Aguarde!

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