Pancrácio

Hoje botei meu melhor sapato. Quis fazê-lo. Ainda que sem meias e de pijama, me deu algum contentamento. Sentado na cama do quarto onde o sol da manhã aquece fiquei ali, olhando meus pés com sapatos e sem meias, me perguntando. Na verdade, queria saber o que sentia ou o porquê de tê-lo feito e assim; morno pelo pouco calor do quarto e pela beleza do sapato, não soube. Não sorria tampouco aborrecido estava, ali, de sapato, sem meias e de pijama, suspenso. Achei de pensar que me daria algum bom desvario imaginar lugares que gostaria de ir ou estar assim, com meu sapato, e claro sem meias e de pijama. Vago demais para agora. Não me veio, não me serviu. O que ocorre é que a caneta preta pesa, e mais do que pela sua qualidade ruim. Me arrasto para preencher o branco, mal suportando o peso do que se apossou de mim e se incumbiu de dar voz a minha distopia. Passei a tentar me lembrar da última vez que calcei o sapato e onde fui, no caso do sapato o lugar, no meu caso feliz. Lembrei, mas não direi. Me basta o presente incomodo do sapato sem meias e porque não faria a menor diferença frente àquilo que se aspira quando se compra um sapato bonito. Mas pesa e incomoda a caneta preta. Difícil lidar com a fantasia do consumo quando se encara de pijama, sem meia e de sapato a realidade. Tudo aflição – essa palavra démodée que sucumbiu ao cientificismo moderno ansiedade, é o que preenche este quarto morno onde me acho, dando conta que, diferente de quando comprei o sapato bonito o estive usando. No mais foi eleger novos lugares, quando não comprar novo sapato. Clareza que não haverá mais lugar algum que eu queira ir ou estar que não me acompanhe este incômodo, pois sempre esteve lá. Porque quando ouço ou digo coisas como “depois que passar isso nós vamos…”, “…é… a gente não pode mais se encontrar…”, a realidade do sapato bonito, sem meias e de pijama me grita: “- Por que disfarças o alívio que sentes por não precisar de desculpas para livrar-te do incômodo de encontros constrangedores?”. Isso e mais a evocação de um passado que era e sempre foi melhor, justo por ser passado e ter sido superado de um jeito ou de outro, o passado como memória boa daquilo que foi superado será sempre bem-vindo no momento em que sentimos medo deste presente que não sabemos ao certo como será superado. Causar estranhamento, acreditar que não será resgatando nada que darei por superado o que se tornou incômodo. Será habitando o presente e propondo novas possibilidades de encontros que sejam confortáveis estar de sapato bonito, sem meias e de pijama.

 

Autor: Angelo

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Comments

  1. Arthur

    Facilmente um dos melhores cronistas da atualidade, Angelo nos traz a sensação tépida de dias que nunca passam e de um tempo que não anda. Estabelece assim um sentimento de horror de cotidiano, de sonho melancólico sem o alívio do susto que causa a epifania de um pesadelo.

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