Conto sobre “Ensaio sobre a Lucidez” de Saramago.

Estou lendo o livro do Saramago “Ensaio sobre a Lucidez”, que é a história que precedeu o “Ensaio sobre a cegueira”. Quatro anos depois de todos terem ficado misteriosamente cegos, uma cegueira onde se via um branco intenso ao contrário do negro absoluto da cegueira “tradicional”, a população portuguesa começa a ter um outro tipo de epidemia, se é que se pode chamar assim.

Convocados para o pleito onde se elegeriam os representantes do país, a grande maioria dos eleitores da capital optam por votar em branco!

As autoridades, sem saber o que fazer, decidem sitiar a cidade e literalmente excluí-la do estado.

Ainda não terminei o livro, e as ações do governo estão se mostrando inúteis e autoritárias. Onde isto vai acabar? Saberei em breve.

Mas enquanto isso, fiz um pequeno conto pensando: E se o mundo se organizasse de tal forma a não precisar mais de governos? Se houvesse uma paz de entendimentos que dispensasse a ação de polícia ou exército? Como seria este mundo onde até as fronteiras não fariam mais sentido?

Espero que gostem.

***

Não se sabe ao certo quando aconteceu, se foi em uma manhã de domingo, às vésperas de algum feriado, um dia santo qualquer, mas aconteceu. As pessoas não tinham mais limites.

Não que tenham deixado de respeitar as leis, ou que saíssem matando seus semelhantes, era outro tipo de limite. Não viam mais as fronteiras. Fronteiras que nos acostumamos a ver no Mapa-múndi todo colorido, cheio de nomes e é claro, todo delimitado por riscos imaginários.

Fronteiras que sempre acreditamos estarem lá e que até pouco tempo, estavam. Quem fazia de tudo para que estes riscos nos mapas existissem eram os seus respectivos governos. Se um país não tivesse uma fronteira bem guardada seria sugado pelo seu vizinho como uma ameba suga um ser microscópico qualquer.

Soldados armados se incumbiam de ser o glóbulo branco da sociedade impedindo que o invasor entrasse em seus domínios e adoecesse assim toda a nação.

Mas um dia as pessoas se deram conta de que isto não fazia sentido. A internet pode ter ajudado no processo, mas como disse, não houve nenhum manifesto dizendo que agora não haveria mais estes limites imaginários. Como em uma espécie de acordo coletivo todos começaram a andar pelo mundo e trabalhar pelo mundo, como era do consenso geral, um não repreendia o outro, já que também estava só de passagem.

As pessoas se encontravam em uma espécie de oásis informal, como se os direitos trabalhistas não fossem mais tão necessários. Não se pedia carteira assinada, e com os bancos virtuais, cada um fazia seu próprio pé de meia. A moeda corrente entre este meio era uma destas moedas virtuais, que nenhuma pátria levou a sério até que se tornasse uma realidade mundial.

Governos tentaram tributar esta unidade monetária, mas nenhum país chegou a um consenso, e ela permaneceu longe das garras de qualquer sistema seja ele capitalista, socialista ou ditatorial.

A situação tornou-se irreversível quando a própria polícia alfandegaria e os militares deixaram de barrar estas pessoas, e sem os glóbulos brancos, os países se contaminaram. Sem qualquer tipo de policiamento, a infecção não podia mais ser contida. O primeiro sinal da irreversibilidade desta nova situação planetária foi quando um destes estados não conseguiu realizar uma eleição, não que as pessoas fossem as ruas impedir o pleito, não havia um só indivíduo que quisesse votar, fora é claro os políticos e parentes de políticos que ainda insistiam na velha ordem. Dizem que um dos filhos do prefeito faltou à eleição, estava em alguma parte do planeta com a filha de um presidente de algum outro país, trabalhando como nômade, pois assim eram chamadas essas pessoas sem pátria que só fazia aumentar.

E sem ninguém para votar, só os políticos e seus parentes, estes se reciclavam no poder, remoendo um queijo que já não apetecia a mais ninguém. O que estes políticos não se deram conta é que eles precisavam de pessoas trabalhando do modo antigo para pagar impostos, da mesma forma que as igrejas precisam de seguidores para dar o dízimo, pois sem a população não se faz nada, nem um artista é famoso, nem um político é político.

Casas eram alugadas com a moeda virtual, não havia recibo ou qualquer documentação que dissesse que quem estava lá não era o seu dono legítimo. – Mandem a polícia investigar casa por casa, que confisquem todos os imóveis que não pagarem seus impostos! Ordenou um destes governantes. Mas sem a polícia ou militares, quem cumpriria a ordem?

E assim o queijo que roíam com tanto afinco, perdeu o gosto, ou como eles mesmos disseram: A fonte secou!

E quando as fronteiras caíram e os políticos sumiram, a desordem virou ordem e o mundo virou um único país.

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