Memórias de Madame Satã – Sylvan Paezzo

Confesso: Nunca fui muito fã de biografias. Sempre preferi a ficção. Nada pessoal, é como gostar de laranjas e nunca ter ligado muito para maçãs. Um gosto pessoal sem qualquer critério. No entanto a biografia “Memórias de Madame Satã” de Sylvan Paezzo me fez ampliar estes meus gostos.

Sempre tinha ouvido falar de Madame Satã, cheguei a frequentar o clube com este nome na Bela vista que um tempo se chamou “Morcegóvia” entre outros nomes (águas passadas). E pelo nome do clube fiquei sabendo desta mítica figura do século passado.

Logo no início do livro ele é dado para um cuidador de cavalos em troca de uma eguinha. Sua mãe, extremamente pobre, se desfez do filho. Algo muito comum na época. Este ponto vale uma reflexão.

João Francisco do Santos (o Madame Satã), nasceu no começo do século, no dia 25 de fevereiro de 1900, pouco mais de 20 anos depois da abolição dos escravos. Muitas pessoas naquela época se valiam de um costume um pouco peculiar; era muito comum uma criança ser “adotada” por um parente ou amigo para que este a ajudasse em casa em troca de uma educação melhor. No caso das famílias mais carentes e geralmente afrodescendentes, este costume serviu para que alguns ainda mantivessem um pequeno escravo trabalhando para eles em troca de uma educação que nunca vinha.

Este fato é mencionado na biografia, e faz pensar o quanto a nossa sociedade minou este povo, mesmo depois da abolição, muitas formas de escravidão disfarçada se manifestava via “jeitinho brasileiro”.  O relato da vida de João Francisco dos Santos é uma transcrição da vida de muitos, que como ele, sofreram pela condição de sua raça.

Assumidamente homossexual, teve este peso acrescido à sua pena de filho de escravos. Ainda pequeno conseguiu fugir da sua segunda “protetora”, do primeiro fugiu com esta mulher que lhe prometeu uma vida melhor, mas na verdade foi a troca de uma calça suja por uma esfarrapada.

Viveu nas ruas, dormia em cestos com medo que ateassem fogo enquanto dormia, e isto aconteceu algumas vezes. Capoeirista de primeira, não levava desaforo para casa, por conta disso adquiriu uma fama que o fez ficar visado pelos policiais da época.

É muito comum dizerem que ele era um porra louca, um artista, um bandido, incorrigível, malandro e por aí vai. Mas lendo o livro e escutando sua voz por trás das linhas, vemos um personagem que apenas resistia, que sabia cair e se levantar.

O mais triste é pensar que ainda hoje há centenas de Madames Satãs vagando pelas ruas. Muitas crianças sem nome, ganhando o dia com os punhos cerrados e dormindo as noites com uma faca escondida por debaixo das roupas.

O Brasil de 1900 ainda tem raízes no século 21, o Madame Satã hoje teria mais de cem anos, mas não tenha dúvidas que se andasse pelas ruas, ainda seria perseguido pela sua cor e pela sua orientação sexual. Infelizmente não melhoramos muito.

Leia esta biografia, e conheça um pouco deste cara, que foi malandro e homossexual, que apanhou, mas também bateu, que foi preso, solto e se perdeu no meio do caminho entre a sela e a liberdade. Este, meus amigos, é Madame Satã. Boa leitura.

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