Rei Rato de China Miéville

Que espécie rivaliza com o homem como maior parasita do planeta, que consome recursos e procria indiscriminadamente sua fome e desconhece fronteiras e devora a si mesmo se for necessário?

Rei Rato é uma releitura do famoso conto de fadas “O Flautista de Hamelin”, que para quem não conhece (ainda), fala de uma cidade que invadida por ratos recebe a ajuda de um misterioso flautista, que promete eliminar a praga em troca de um bom pagamento.

A cidade aceita a oferta, o flautista leva todos os ratos para o rio usando sua música que os hipnotiza. Todos os ratos entram na água e morrem afogados. Ao reclamar seu pagamento, a cidade já livre da praga se nega a cumprir sua parte no trato e em vingança, ele leva todas as crianças, que nunca mais são vistas.

Nesta versão de Miéville, os ratos não morrem.

Em seu romance de estreia, Saul Garamond é um cara sem rumo na vida, gosta de sair, curtir raves e música como qualquer pessoa da sua idade. Até o dia em que vai para casa, sobe para o seu quarto sem conversar com o seu pai e é acordado pela polícia, que alega ser ele o assassino de seu pai.

Ele é resgatado das autoridades por um ser misterioso que se autodenomina Rei Rato.  Seu salvador afirma ser o líder deposto do exército de roedores que foram expulsos de Hamelin 700 anos antes. Como se não bastasse, ele afirma ser seu irmão mais velho.

A fantasia e o absurdo navegam tranquilamente neste livro de Miéville, esta é uma das características do que está sendo chamado de “New Weird” (nova esquisitice, numa tradução literal) para saber mais dá uma olhada nestes links: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1803200617.htm
https://universofantastico.wordpress.com/2010/03/08/o-new-weird/

Este movimento, se é que pode se chamar assim, é uma busca por caminhos já calcificados da literatura fantástica, cheios de Elfos, mundos paralelos, Dragões, clones e por aí vai.

A ideia é não ter fronteiras, não ter um gênero, sair da regra e se reescrever. Numa sociedade cada vez mais plural (isto inclusive no campo da sexualidade) é natural que haja um reflexo nas artes e a literatura é sempre um ótimo medidor social.

Elementos tradicionais da ficção científica são agregados a thriller político, personagens reais, faroeste, policial Noir. Tudo com a intenção de liberar a literatura fantástica dos seus clichês.

Toda a renovação é bem-vinda, e autores como China Miéville estão surgindo da terra e riscando o céu com garras mecânicas de um rato nascida nas terras médias.

E quem é esse cara?

China Tom Miéville é um autor de fantasia e roteirista de histórias em quadrinhos, professor e político inglês.

Britânico, nasceu em 6 de setembro de 1972. Tem uma irmã, Jemima, e sua mãe Claudia, é tradutora, escritora e professora.
Os pais escolheram o primeiro nome dele, China, de um dicionário estavam “procurando um nome bonito”.

Aos 18 anos, ensinou inglês no Egito, onde começou a se interessar pela cultura árabe e pela política do Oriente Médio.

Fez bacharelado em Antropologia Social na Faculdade de Clare, em Cambridge.

Hoje é professor de Escrita Criativa na Universidade de Warwick e membro da Sociedade Real de Literatura.

Além do Rei Rato escreveu outros cinco romances:

  • Un Lun Dun (2007)
  • The City & the City (2009) no Brasilː A Cidade e a Cidade (Boitempo Editorial, 2014)
  • Kraken (2010)
  • Embassytown (2011)
  • Railsea (2012)

Uma curiosidade

Existe um termo “Rei dos ratos”, é quando vários ratos ficam presos uns aos outros pela cauda.

Os roedores ficam colados por sangue, sujeira, gelo e excrementos.

Acredita-se que quando isto acontece, estes roedores crescem ao mesmo tempo e os ossos das caldas acabam calcificando, criando um tipo de massa viva de roedores.

É um fenómeno raro e normalmente associado à Alemanha, onde um maior número de casos foi relatado.

Aqui no Brasil não vemos este fenômeno nos roedores, mas se quiser estender a sua percepção para outros níveis. No estilo New Weird, poderíamos levar este conceito à Brasília, onde os ratos existem e os rabos presos e calcificados regem a ordem política.

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