Se parássemos por segundo…

Carol acorda de manhã, posta um artigo em seu blog enquanto faz um café, não tem muito tempo, esquenta e requenta o líquido preto da garrafa térmica, produto de noites anteriores.

Enquanto assiste a um jornal para se inteirar das notícias, prepara o material para uma reunião que vai acontecer no final do dia.

– Tenho que levar o Joca para passear! – Lembra.

Joca é um Terrier que ganhou em um relacionamento passado, ou a única coisa que sobrou de um relacionamento passado.

Na rua, segurando a coleira, o telefone toca. A reunião foi antecipada, o Joca vai ter de ser rápido nas suas necessidades. Suspende o coco no espaço. O retorno do passeio foi antecipado.

Em casa fica feliz por ter comprado um celular à prova d’agua, enquanto toma banho acerta pelo Whatsapp os detalhes da reunião. Passa um memorando para a equipe e fecha uma sala para antes do almoço.

Pega o carro, com a chave no contado o celular toca. Em tempo liga o celular ao bluetooth do carro, não precisa parar para atender ao chamado. Sua filha, que passou a noite com o pai e já está na escola, ao fundo da ligação um choro e uma garotinha chamando pela mãe. Ela. Antes de ir ao trabalho desvia do caminho e em cinco minutos vai até a escola. É apenas uma febre. Chega a um acordo rápido com a enfermeira da escola e um pouco de paracetamol a faz voltar à sua rotina diária.

Carro em movimento, e o telefone também. – Está atrasada! –  Começa a trabalhar ainda no trânsito, solicita, cobra e submete vários problemas. O sinal fecha. Um guarda passa perto, mas como o celular está conectado ao painel, não percebe que ele está em pleno funcionamento e sua dona literalmente conectada a dois mundos, talvez três, mas se sua filha piorar, quatro!

A respiração de Carol já foi ofegante, não é mais, seu corpo se adaptou ao multiprocessamento. Seu cérebro foi dividido em vários compartimentos. Não se lembra quando deixou de ter o foco em apenas uma coisa de cada vez.

Em um de seus compartimentos consegue um espaço para um devaneio. Lembra de quando ficava no quintal de casa, olhando uma árvore, uma pequena árvore plantada por sua avó. Era uma figueira talvez. O tempo levou alguns detalhes.

– Sim era uma figueira. –  Afirma para si mesma, enquanto responde ao telefone, que voltou a tocar. –  Já está chegando? –  Cinco minutos, estou virando a esquina.

Não deveria ter esta dúvida, era sim uma figueira, será que o passado estava perdendo espaço para os processos do presente? Será que um dia esqueceria da febre da filha, do paracetamol?  Ou pior, será que ela própria seria esquecida, como se esquece um computador velho que perdeu a sua capacidade de processamento?

– Capacidade de processamento. É isso que nos define?

Para o carro na entrada da garagem bloqueando outros carros, outros motoristas com capacidades gigantescas de processamentos. Engata uma ré. A sincronia é perfeita, como uma serpente mecânica, todos os carros começam a dar ré também. Gritos e palavrões quebram a perfeição do processamento, sim as buzinas também.

Carol da ré por quase uma quadra, deve ter saído em algum jornal. A serpente mecânica não passou incólume sobre os olhares onipotentes das câmeras. Quando foi possível, engatou a primeira e saiu por alguma rua perpendicular deixando a serpente sem cabeça, que estando sem o apêndice encefálico, logo desapareceu se dissolveu em processos outros que agora não importavam mais.

Carol foi até a escola, entrou na sala do jardim da infância e chamou uma menina com rosto avermelhado, que quietinha num canto, se recuperava de uma febre dominada pelo paracetamol.

– Jú, vamos para casa?

– O que aconteceu mãe?

– O Joca precisa fazer coco…

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