Niguém

Minha mãe estava lá, caída na calçada, respirava com dificuldade. Ao seu lado um senhor, não sei quem era, mas todos prestavam mais atenção nele que em minha mãe, ainda teve força pra me puxar junto dela, a cabeça incomodava, pediu ajuda sem falar. Com a minha mão que tremia segurei a sua cabeça que já estava ficando mole. Dava pra sentir o cheiro do tiro quando acariciei seus cabelos que de manhã ajudei a pentear, eles estavam molhados, era suor e sangue. Cidão tinha fugido, não sei para onde, não sei se o pegaram depois. Queria que fosse ele ali no chão, mas era a minha mãe. O sangue dela escorria pelo asfalto, encostava no meu corpo, subindo pelo vestido que fino ia aos poucos ficando da cor da minha pele. A mãe me olhou com olhos apagados, sabia que era a última vez que veria aqueles olhos, lembrei das minhas irmãs indo embora, tive um pouco de inveja, elas não estavam lá. Mas a inveja não foi longe, era eu quem a mãe queria naquela hora.

— Eles vão ajudar agente. —  Mãe sorriu, sabia que era mentira, ninguém ajuda puta, ninguém ajuda pobre. Baixei minha cabeça como se fosse contar um segredo, encostei meus olhos naquele rosto que ia de vagar ficando frio, o rosto dela estava molhado, percebi que eu chorava. Empurrei meus dedos dentro dos seus cabelos, procurei algum calor apertando até minhas unhas quebrarem. Desci com a mão pelo seu peito, estava mole do tiro, tinha muito sangue, um policial passou perto de mim correndo, empurrou eu e minha mãe para um canto. Foi socorrer o senhor — A minha mãe moço! —  Nem pra me ajudar a tirar ela do caminho. Começou a juntar gente, nós fomos enterradas por gente que nem sabia que estávamos ali.

— Tem gente morrendo aqui deste lado. —  Grito pra ninguém. Olho para minha mãe, que ainda finge que está viva, encosto meu rosto de novo, e com um beijo percebo que ela não fingia mais.

Ouvia as pessoas falarem: — Também vai se envolver com vadia, mulher de vida fácil, olha no que dá. —  Só que tinha uma mulher de vida fácil sem vida aqui, e ninguém olhava pra gente, não tinha ninguém, era eu e ela, como sempre fomos. Dona Quitéria, minha mãe, estava lá em meus braços, eu a segurava contra o peito, tentando tirar a sua cabeça dos pés que iam e vinham. Do nada uma mão encostou no meu ombro, era um policial.

— Sabe quem fez isso. —  Disse sim com a cabeça. — Você vem para delegacia comigo. — E minha mãe? — Sua mãe já era. Deixa ela aí que o pessoal leva para o necrotério.

Não tenho tempo de me despedir, o policial me agarra pelo braço, num puxão me tira longe do chão como se eu fosse um saco de lixo. Tento segurar a mão de mãe, com um tapa esqueço a ideia. Só vejo o corpo dela ficando menor, até que me jogam dentro do carro e tudo some em fumaça.

Duas horas depois e ainda estou na delegacia, ninguém fala comigo, ninguém pergunta nada. Muita gente me olha como se a arma que matou a minha mãe estivesse nas minhas mãos, mas foi Cidão que matou ela, foi Cidão. Não via hora de falar com o policial, entregar a assassina da minha mãe. Sabia onde morava, sabia onde trabalhava, o que gostava de fazer, sabia tudo. Mas ninguém me perguntava. O sangue da minha roupa estava seco, já não aparecia tanto o meu corpo, melhor assim, não vai ter policial tentando ver o que tem aqui debaixo. O sangue já estava seco, mas ainda estava molhada, não entendia como aquele sangue ainda estava lá, até olhar no meio das minhas pernas. Não era hora de virar mulher. Minha mãe falou que estava para acontecer, a gente ia juntas comprar coisas para quando acontecesse. Que ela ia me ajudar, que ia ser normal. Não foi. Eu não sabia pra quem pedir ajuda, não tinha com quem falar. Tentei levantar para ir ao banheiro, mas o policial mandou me sentar.

— Você não sai daqui até não esclarecer tudo. —  Me jogou na cadeira e uma pasta começou a se formar embaixo de mim. Tinha mais sangue naquele banco que no peito de mãe, pensei que talvez eu tivesse levado um tiro também e que era só esperar a minha vez de morrer. Mas não morri, e o sangue estava lá, enchendo o banco. Isso não seria problema se não começasse a doer a minha barriga, a dor foi de fraco pra forte, aumentava e aumentava. Chegou uma hora que eu não aguentei.

— Eu não tô bem! —  Gritei na mesma hora que levantei, as minhas pernas ficaram vermelhas, a delegacia parou e tudo ficou escuro.

Quando acordei tinha uma dona me olhando, estava com uma roupa limpa e tinha um absorvente no meio das minhas pernas.

— Quer contar o que aconteceu? —  A moça chegou com uma cadeira para perto de mim e passou a mão nos meus cabelos, lembrei de mãe, tirei a mão dela longe.

— Foi o Cidão, a namorada da minha mãe, ela matou por que tinha ciúmes. Eu sei onde ela mora, eu te levo lá. —  Torci pra ela aceitar, eu queria ver aquela vaca ser presa, queria ver a cara dela quando estivesse no camburão, se eu desse sorte ainda pegava a arma do policial e acabava com tudo ali mesmo.

— Ela já foi presa, não foi muito longe, a multidão quase linchou a coitada.

— Coitada? A vaca matou a minha mãe e você chama ela de coitada? —  Levantei com as pernas meio bambas e procurei a saída. A Dona me segurou pelo braço.

— Você tem para onde ir? — Tenho! — Tem? — Não.

Cai sentada no chão, até agora não tinha percebido que eu estava sozinha, minhas irmãs não via faz tempo, o meu pai não conheci, mas minha mãe falou quem era e que também era casado. Pra onde eu iria?

— Vem comigo, eu te ajudo. —  A Dona pegou a minha mão, pensei que fosse me levar para uma assistente social ou algo assim. Saímos da enfermaria, não sabia que delegacia tinha enfermaria, passamos por um corredor estreito, tinha algumas portas, uma delas estava escrito “Assistente Social”, não paramos. Quando vi estávamos na garagem, a Dona pegou uma chave, apertou o alarme e a luz de um carro acendeu mais à frente.

— Camila, eu me chamo Camila. E você? —  Eu tinha ficado o dia inteiro na delegacia e ninguém perguntou o meu nome. A Dona já foi abrindo a porta, entrei e sem dizer nada fomos andando.

— É certo isso moça?

— O quê? Te ajudar? Claro, sou assistente social, eu faço isto todos os dias. Vou te arrumar algumas roupas e te dar um pouco de comida, está com fome?

— O que a gente vai comer?

— Lá em casa tem alguma coisa, te preparo um prato rapidinho e daí decidimos o que fazer com você.

— Como assim? —  Achei muito esquisito toda aquela história, mas minha mãe estava morta, o que eu tinha pra fazer?

Chegando na casa da Dona, paramos em frente à garagem. Tinha um portão daqueles que abria sozinho, os muros eram bem grandes, algum mato saia de cima do muro, tinha um jardim lá dentro.

— Eu te prometo, vamos acertar a sua situação. Muitas meninas ficam assim sem pais, mas sempre tem um lugar bom para vocês? Vem, deixa eu te ajudar. —  A Dona segura na minha mão, não dou reação.

Ela me leva até a casa, tem umas pedras no chão, pra não pisar na terra. Minha mão está bem presa na dela, com um sorriso a Dona me puxa pra dentro. Lá tem um homem que a dona diz ser seu marido, ele está deitado no sofá, fica me vendo passar pela sala e ir até a cozinha. Na parede tem um monte de desenhos estranhos, o cara também é estranho.

— Tatuagens!

— O quê?

— Tatuagens, o meu marido trabalha com tatuagens, o estúdio dele é aqui mesmo. Gosta? Podemos fazer uma, só precisamos da autorização dos seus pais, você ainda é muito nova. —  A dona dá uma risadinha sem graça, não sei se foi uma boa ideia ter vindo com ela.

— A minha mãe morreu.

— Eu sei, você pensa que eu sou maluca? —  Outra risada. — Talvez eu possa falar com o seu pai, sabe onde ele está?

Não sabia o que responder, será que a dona era doida e se soubesse que eu não tenho pai ia me prender aqui pro resto da vida? E se eu falasse que tinha, ela ia falar com ele? Eu ia aparecer na casa dele? Não tava certo isso. Respondi ficando quieta.

— Bom, se não quer responder não tem problema, eu prometi um almoço e é o que vamos ter. Arroz, feijão e um bifinho? O que acha?

A minha barriga respondeu que sim, ainda sentia muita dor, mas não quis falar. A roupa que eles me deram na delegacia era curta demais, tinha que ficar puxando toda hora. E o marido da dona, ele não parava de me olhar. Eu ia comer e achar um jeito de sair de lá rapidinho.

Eles me trataram bem até que ficou de noite. O marido da dona era simpático e ficamos conversando um tempo enquanto a dona limpava a mesa do jantar e depois sumiu num dos quartos. — Amanhã vamos levar você para uma instituição, eles vão te ajudar. —  A Dona Carol já estava de camisola quando apareceu na sala, me mandou um sorriso e foi dormir, ficamos só eu e o marido dela, ainda não sabia o nome dele e nem queria perguntar, ele não parava de falar.

— Então, quer dizer que a sua mãe tinha uma namorada? Então você tinha duas mães. Deve ser chato ter duas mães, a minha pegava no meu pé direto, imagina se eu tivesse duas?

Enquanto falava começou a andar de um lado para outro da sala, foi num armário e pegou uma bebida.   Voltou apontando para os quadros na parede.

— Estes são os meus melhores trabalhos, só penduro aqui os que ficaram realmente bons. Eu trago muita gente aqui. Tenho que manter meu portfólio bem à vista, assim dá mais confiança para o povo. E você gosta de tatuagens?

— Tanto faz, tem muita gente tatuada onde eu moro.

— Ah, mas nenhuma como estas daqui. Eu, modéstia à parte, sou muito bom nisso. —  Cada quadro que explicava tomava uns goles do sei lá o que que ele estava bebendo, e a cada gole ele falava ainda mais.

— Se quiser posso fazer uma em você, agora mesmo. O que acha?

— Não precisa da autorização dos pais? —   Ele deu uma risada que assustou, mas depois ficou sério.

— Eu só preciso da sua autorização, então o que acha? Tenho um catálogo aqui, você escolhe e eu já vou pegando as minhas agulhas.

Pequei o livro, o tal do catálogo, fui virando as páginas, virando. Tinha muito desenho engraçado, uns metiam medo, mas a maioria era engraçado. Virei as folhas e virei, até que parei em uma foto, tinha que ser aquela. Ele chegou com as agulhas e um cheiro de álcool forte, me olhou com cara séria.

— Tem certeza?

— Sim.

— Onde vai ser?

Apontei a minha barriga, bem perto do umbigo.

— Faz virado aqui para baixo. —  Ele colocou o copo num canto. Esfregou a cara para ficar mais acordado, me olhou nos olhos, respondi com os meus. A sala ficou em silêncio. A minha barriga doía mais que nunca, mandou eu tirar o vestido, a calcinha estava vermelha, cheia de manchas vermelhas, ele segurou a minha barriga, passou um álcool, doía só de encostar, mas fiquei quieta. A agulha ia penetrando na minha pele, a dor subia até a cabeça, segurei o choro, mas não tinha muito que segurar, chegou uma hora que a dor não incomodava mais, a mão quente dele, as agulhas dançando na barriga, a cabeça girava perdida no beijo que dei na minha mãe, o último beijo. Não sabia onde ela estava, nem ia saber. Tudo que foi a minha família foi embora hoje de manhã e agora eu só tinha agulhas na barriga.

— Pronto, acabei. O que acha, não sou bom? —  Ele me olha e percebe que a sua mão ainda está na minha barriga. Não deixei ir embora. Apertei forte na tatuagem que ainda ardia na minha pele. Paramos de falar. Senti o seu cheiro, que agora tinha tinta também. Coloquei a minha mão dentro dos cabelos dele, como tinha feito com a minha mãe, abracei sua cabeça contra o meu peito, e as nossas bocas se falaram. Ele não se importou com as manchas na calcinha, não se importou com o sangue que corria. Eu não me importei com a dor, a dor que vinha mais do coração que da barriga.

Umas horas depois ele estava dormindo. Levantei e fui ao banheiro, o mesmo banheiro que horas antes a dona Camila tinha trocado de roupa, eu estava sem. No espelho vi a tatuagem, ela ficou boa. A arma estava desenhada lá pra sempre e apontada para onde deveria estar. Era um 38, a mesma arma que o Cidão usou em minha mãe. Fui no quarto onde a dona dormia, abri o armário, peguei algumas roupas e me vesti. Todos dormiam. Na cozinha peguei um pouco de comida, embaixo do armário tinha uma sacola, coloquei o que consegui achar.

Já no quintal descobri que não tinha as chaves do portão, não precisava, tinha uma árvore no jardim, foi só subir, pular para o outro lado foi difícil, a barriga doía muito. Com os dois pés no chão segui o meu caminho, agradeci a minha mãe ter me ensinado a nunca acreditar em uma promessa.

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