Brilho sem lembrança de uma mente eterna

Demétrius 90 anos, era o mais novo de sua turma. Amigos centenários viviam em uma casa de repouso na Moóca. Os quartos eram individuais, afinal o silêncio era um bom companheiro quando os ouvidos se cansavam de ouvir.

Apesar destes quartos serem individuais, eles não ficavam sozinhos. Androides, do tamanho de uma criança, faziam companhia. Eram unidades de memórias afetivas. Conversavam quando sentiam que os seus companheiros estavam sozinhos. Sempre ouviam suas histórias, e como se pareciam com crianças, davam aos seus companheiros de quarto a sensação de que eram eles que estavam cuidando do seu pequeno amigo.  Cada companheiro ficava ao lado de seu “amigo” enquanto estivesse lá. Depois de sua partida seria resetado e enviado para o próximo senhor ou senhora que habitasse aquele quarto.

O companheiro de Demétrius era um modelo linear com memória positrônica de baixa intensidade, o que significava que sua RAM ativa era voltada inteiramente a servir ao seu companheiro chegando a copiar suas lembranças para torná-los mais íntimos.

– Você roubou, era a minha vez!

– Não enche seu velho, perdeu. Passe para cá a sobremesa.

Demétrius era péssimo nas cartas, sempre perdia para o seu amigo o Jonas. Que estava cada vez mais gordo por conta das sobremesas ganhas. – Pelo menos fico no peso – Se conformava.

De noite, sozinho. Contava historinhas para sua unidade, historinhas para dormir.

Sempre que podia, andava até o quarto vizinho e encontrava Jonas. Eles conversavam, lembravam do tempo em que eram jovens. Sua unidade o acompanhava para onde quer que fosse. O robô de Jonas era igual ao seu.

– Estes robozinhos são uma maravilha. Às vezes acordo no meio da noite, sem sono, e começo a conversar com esta praguinha. Ele me escuta e responde como meu filho fazia quando era pequeno. – Jonas pega um cigarro e começa a fumar.

– Nunca acordei no meio da noite para chateá-lo. Ele não precisa de um velho como eu… – Demétrius começa a tossir – Este cigarro vai te matar.

– Demétrius, a vida vai me matar, e não foge do assunto, estas maquininhas são feitas para isso. Para nos fazer companhia. Chega uma hora que é o que a gente tem.

– Eles são amigos. Como você.

– Não é a mesma coisa. Essa praguinha está aqui para fazer tudo o que a gente precisa. Nós pagamos por elas.

– Nós pagamos pelo quarto, pela sala, pela comida. –  Demétrius se ajeita no sofá que está perto de um retrato da falecida esposa de Jonas.

– Pela sobremesa!

– É, pela sobremesa que você sempre me leva…

– E pagamos também pra estas maquininhas ficarem aqui servindo a gente.

– Eles são uma companhia, uma boa companhia.

– E eu Demétrius, também não sou um bom companheiro? E estou aqui de graça!

– Eu gosto de pensar que ele também está aqui porque quer.

– Amanhã tem jogo – Jonas desconversa enquanto pega outro cigarro. – Vamos assistir? Falei com o Geraldo da cozinha, ele vai liberar umas cervejas para o pessoal.

– Não sei meu amigo, não tenho me sentido bem ultimamente. Acho que é o seu cigarro.

– É uma desculpa para não ver o seu time perder. O São Paulo é freguês nosso.

– Acho que está na hora de dormir. – Demétrius não se importa muito com a provocação de Jonas, seu peito dói mais forte que a tristeza que sente quando pensa em sua esposa.

No quarto olha para o seu companheiro positrônico – Hoje não vai ter história amiguinho, estou muito cansado. – Olhos mecânicos fitam seu parceiro. Se olhássemos com atenção, veríamos uma pequena luz brilhando no fundo de seus olhos enquanto a luz de Demétrius ia aos poucos ficando mais pálida. Demétrius deitou-se na cama, a dor no peito virou saudades e começou a diminuir. Uma pequena felicidade cresceu do meio de sua barriga e caminhou até o coração.

Seu corpo estava relaxado como há tempos não ficava. Sentiu um toque em seu rosto. A esposa estava lá. A mão do rosto desceu para a sua mão que repousava sobre o peito. A palma quente abraçou seus dedos. Então dormiu.

De manhã uma movimentação atípica chamou a atenção de Jonas. Pessoas andavam com certa pressa pelos corredores. Sua unidade companheira ficou parada perto da porta. Era a única calma naquela manhã. Ainda de pijamas saiu para o corredor, viu Catarina uma amiga do quarto à sua frente; parada, imóvel, olhos vermelhos. Era cedo e estava vestida como se fosse sair.

– O que aconteceu? Vai ter festa aqui hoje?

– Jonas, o Demétrius…

Não precisava terminar a frase, o nome de seu amigo acompanhado dos olhos vermelhos de Catarina dizia tudo. Jonas não trocou de roupa, saiu em direção à rua. Não queria ver Demétrius ser levado por uma maca com lençol na cara. – Por que colocam lençol na cara? O morto tem vergonha de estar morto? Ou é para esconder da gente o que vamos ser?

Jonas andou por ruas e becos, estava sem rumo. Não tinha hora para voltar, lugar para ir, ninguém o esperava em lugar algum. Quisesse ficar lá na calçada por horas, dias! Quem se importaria?

Seus olhos vagaram e encontraram um Jesus pintado em um muro. Os braços de Cristo se estendiam para frente, como que o chamando. Se levantou, olhou o Cristo bem nos olhos, fechou o punho e como se fosse socar o vento, gritou:

– Ainda não!

Voltou para casa, todos já tinham saído para o velório. Menos o Geraldo, ficou para preparar o almoço.

– As cervejas ainda estão de pé?

– Não sei se vamos ter clima para o jogo hoje Jonas. É melhor deixar para outra.

– Que merda, alguém morre e não temos mais um jogo.

– Era o Demétrius cara, o seu companheiro, o seu amigo.

– A única coisa boa dele era a sobremesa. – Jonas não espera a resposta. Sobe as escadas e vai em direção ao quarto de Demétrius.

A cama está arrumada, lençóis novos, limpos. – Nem bem um morre, já arranjam tudo para o próximo. Espero que este goste de jogar cartas. – Seu pensamento é cortado por um som contínuo, repetitivo que vinha de um canto do quarto. No escuro uma luz, uma pequena luz que brilhava timidamente.

– É você praguinha? Ainda não te apagaram?

– Você roubou, era a minha vez!

Não te apagaram ainda? Logo o cara que está aí na sua cabeça vai sumir. Você vai ter outro amigo. Outras histórias. Sua vida é isso, não é? Um pouco de memória de um cara que não está mais aqui e que vai ser apagada. Acho que todo mundo é um pouco isso. Somos só um monte de pensamentos que somem no ar de uma hora para outra.

Jonas foi para o seu quarto, deitou-se na cama. O retrato de Diva estava na cabeceira. Pegou com as mãos limpas. Ainda tinha alguma marca dos dedos sujos de doce no vidro da moldura. – É menina, vai ficar limpinha de agora em diante.

A casa de repouso não costumava ficar com quartos vagos por muito tempo. No mesmo dia, à noite, um novo morador apareceu. Era um senhor que sofria de Alzheimer. Jonas acompanhou toda a mudança. Ficou parado no umbral da porta enquanto resetavam a unidade do quarto. Aos poucos suas memórias foram se apagando. O que estava lá, estava perdido para sempre. Seria carregada com nada, se dependesse do novo morador. – O que somos se não um monte de lembranças?

Tudo acabado, o novo morador, o robô limpo, o jogo que ninguém viu e mais tarde soube que o Corinthians tinha ganhado. No seu quarto, o retrato de Diva e no cantinho, sua unidade. Piscava uma luz tímida.

– Você roubou, era a minha vez!

– O seu time perdeu meu caro. A próxima sobremesa é minha.

Jonas sorriu e dormiu um pouco menos triste aquela noite.

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